sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Meu coração fica com o coração dela...

“No fim tu hás de ver que as coisas”.
mais leves são as únicas
que o vento não conseguiu levar:
um estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha o próprio vento..."
(Mário Quintana)


Porque a boca fala do que está cheio o coração. O homem bom tira do tesouro bom coisas boas; mas o homem mau do mau tesouro tira coisas más.
Mateus 12:34-35

Meu coração fica com o coração dela...

"A boca fala do que está cheio o coração": esse é um ditado da sabedoria judaica que se encontra nas escrituras sagradas. Bem que poderia ser a explicação sumária daquilo que a psicanálise tenta fazer: ouvir o que a boca fala para chegar ao que o coração sente. Acontece comigo.

Cada texto é uma revelação do coração de quem escreve. Pois o meu coração ficou cheio com uma coisa que me disse minha neta Camila, de 11 anos. O que ela falou fez meu coração doer. Como resultado, fico pensando e falando sempre a mesma coisa. A Camila estava na sala de televisão sozinha, chorando. Fui conversar com ela para saber o que estava acontecendo. E foi isso que ela me disse: "Vovô, quando eu vejo uma pessoa sofrendo, eu sofro também. O meu coração fica com o coração dela". Percebi que o coração da Camila conhecia aquilo que se chama "compaixão". Compaixão, no seu sentido etimológico, quer dizer "sofrer com". Não estou sofrendo, mas vejo uma pessoa sofrer.

Aí, eu sofro com ela. Ponho o outro dentro de mim. Esse é o sentido do amor: ter o outro dentro da gente. O apóstolo Paulo escreveu que posso dar tudo o que tenho aos pobres, mas, se me faltar o amor, nada serei, porque posso dar com as mãos sem que o coração sinta.
A compaixão é uma maneira de sentir. É dela que brota a ética. Alguém foi se aconselhar com Santo Agostinho sobre o que fazer numa determinada situação. Ele respondeu curto e definitivo: "Ama e faze o que quiseres". Pois não é óbvio? Se tenho compaixão, nada de mau poderei fazer a quem quer que seja.

Fernando Pessoa escreveu um curto poema em que descreve a sua compaixão. Por favor, leia devagar: "Aquele arbusto fenece, e vai com ele parte da minha vida. Em tudo quanto olhei fiquei em parte. Com tudo quanto vi, se passa, passo. Nem distingue a memória do que vi do que fui". Compaixão por um arbusto... Ele explica esse mistério da alma humana dizendo que "em tudo quando olhei fiquei em parte. Com tudo quanto vi, se passa, passo...". Os olhos, movidos pela compaixão, o faziam participante da sorte do pequeno arbusto. Eu já sabia disso, mas nunca havia enchido o meu coração a ponto de doer.

Doeu porque liguei a fala da Camila a essa tristeza que está acontecendo no Brasil. Os corruptos são homens que passaram pelas escolas, são portadores de muitos saberes. Tendo tantos saberes, o que lhes falta? Falta-lhes compaixão. A falta de compaixão é uma perturbação do olhar. Olhamos, vemos, mas a coisa que vemos fica fora de nós. Vejo os velhos e posso até mesmo escrever uma tese sobre eles, se eu for um professor universitário, mas a tristeza do velho é só dele, não entra em mim. Durmo bem. Nossas florestas vão aos poucos se transformando em desertos, mas isso não me faz sofrer.

Não as sinto como uma ferida na minha carne. Vejo as crianças mendigando nos semáforos, mas não me sinto uma criança mendigando em um semáforo. Vejo os meus alunos nas salas de aulas, mas meu dever de professor é dar o programa e não sentir o que os meus alunos estão sentindo.

De que vale o conhecimento sem compaixão? Todas as atrocidades que caracterizam os nossos tempos foram feitas com a cumplicidade do conhecimento científico. Parece que a inteligência dos maus é mais poderosa que a inteligência dos bons. Sabemos como ensinar saberes. Há muita ciência escrita sobre isso. Não me lembro, no entanto, de nenhum texto pedagógico que se proponha a ensinar a compaixão. Talvez o livrinho "Como Amar uma Criança", do Janusz Korczak - mas Korczak é uma exceção. Ele sabia que, para ensinar algo a uma criança, é preciso amá-la primeiro. Korczak era um romântico. Por isso o amo. Aí, fiz a mim mesmo uma pergunta pedagógica: "Como ensinar a compaixão?". Conversando sobre isso com minha filha Raquel, arquiteta, ela se lembrou de um incidente dos seus primeiros anos de escola, quando ainda era uma menina de sete anos. Seria o aniversário da faxineira, uma mulher que todos amavam.
A classe se reuniu para escolher o seu presente. Ganhou por unanimidade que, no dia do seu aniversário, as crianças fariam o seu trabalho de faxina.

Disse-me a Raquel que a faxineira chorou. Sei que as crianças aprendem com um olhar especial, o olhar de suas professoras. Elas sabem quando as professoras as olham com os mesmos olhos com os quais Fernando Pessoa olhava o arbusto quando escreveu o poema.

Sei também que as histórias provocam compaixão quando o leitor se identifica com um personagem. Sei de um menininho que se pôs a chorar ao final da história "O Patinho que Não Aprendeu a Voar". Ele teve compaixão do patinho. Identificou-se com ele. Vai carregar o patinho dentro de si, embora o patinho não exista. Lemos histórias para as crianças e para nós mesmos não só para ensinar a nossa língua mas também para ensinar a compaixão. Mas continuo perdido. Preciso que vocês me ajudem. Como se pode ensinar a compaixão?

© Rubem Alves


Recados e Imagens - Bom Fim de Semana - Orkut

Para todos(as)!


Rosane!


12 comentários:

  1. Que pergunta difícil, hiem Vovó? Como ensinar a compaixão?

    Eu sinceramente não sei, e também nem sei se isso se ensina. Acho que esse é o tipo do sentimento que é estimulado pelo exemplo. Se você vive onde há esse sentimento, provavelmente vai ter ele também. É assim com a maioria da coisas, né? Por isso, vamos fazer nossa parte, acho que tudo depende da nossa própria compaixão.

    Linda reflexão, vovó!!!

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  2. Compaixão... o mundo seria tão melhor se as pessoas fossem mais solidárias, heim Rô?
    Lindo texto de Rubem Alves!

    Beijão, minha querida! Que você tenha um final de semana iluminado de amor e paz!

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  3. eSTÁ TUDO MAIS QUE MARAVILHOSO AQUI...
    Belos textos, belas imagens, interessantes perguntas...
    Adorei a intensidade de Mário Quintana que trouxesse...
    Partab´´ens!!
    Abraço!!

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  4. Como ensinar coisas espirituais para um povo necessitado de soluções físicas, materiais, temporais? Jesus foi movido pela compaixão. E somente o espírito de Deus nos amolece o coração, diante das grandes necessidades que nos cercam. Quem não está em Deus, não tem compaixão. Beijus

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  5. Boa Noite! RÔSANE,
    NÓS E NOSSOS NETOS!
    e ainda aprendemos tanto com eles,
    talvez a tarefa delesagorasejaesta nos perguntar como são os sentimentos!
    Maravilhoso viver, minhairmã,porque vivemossitotudo alguma vez emnossas vidas,
    SAUDADES, E BOM FIM DE SEMANA!
    tô de olho nas receitas, viu/

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  6. Rubem Alves sempre... sempre dizendo o que eu queria dizer e o que eu quero aprender.

    Obrigado vó Rô!

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  7. Rô, este relato do Rubem é mesmo emocionante e toca fundo na gente. Também queria saber como se ensina a compaixão! Mas acho (apenas acho) que sei a resposta: ele - o sentimento "compaixão" - já nasce ou não com a gente, assim como tantos outros sentimentos que estão em falta atualmente. Talvez muitos precisem ser lapidados, mas há que se ter ao menos a pedra bruta plantada em algum cantinho de nosso ser.

    Bom final de semana!
    Beijão!

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  8. Rosane,
    Esse cantinho é CHIQUE!!! Tudo muito fofinho!!!Legal!!!!Parabéns pelo bom gosto.Tem post novo, me honre com sua presença!!!Beijão

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  9. Estamos precisando de pessoas que tenham compaixão... Me emocionei!!!
    Beijos, minha vó maravilhosa!!

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  10. Boa noite!!
    Viemos aqui te convidar para desfrutar da visita ilustre que recebemos!!Participe com a gente!!
    Grande Abraço!!Adoramos sua participação no nosso cantinho!!

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  11. Manhinha...
    Não sei, e sei:
    Só se pode ensinar o que se é! O que se vive!
    A melhor forma de se ensinar qualquer coisa e vivendo e sendo o que se quer ensinar.
    Então proponho exerçamos a compaixão em nós mesmos, sejamos indulgentes, exerçamos o amor, só o amor poderá nos fazer melhores.
    Bj

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"Concedei-nos, Senhor, a serenidade necessária
Para aceitar as coisas que não podemos modificar,
Coragem para modificar aquelas que podemos,
E sabedoria para distinguir umas das outras".

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