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domingo, 15 de maio de 2011

"A hora que passa" Gabriela Mistral


Time Passes In The Blink As A Eye With A Clock Built In Watches Time Tick By Stock Photo - 8694167


A hora que passa

Entrega o fruto do teu trabalho: teu quadro, teu tijolo, teu cântaro, teu poema. Hoje só podes contar com a hora que passa; não podes contar senão com estes arroubos de teu coração, com este alento de tua boca, com a claridade dos teus olhos postos nesta hora que passa. Que a morte talvez tenha neste momento os teus pés enredados na teia aveludada e branca, e sobe, e sobe...
E que o pensamento insidioso de que a morte te olha, debruçada por sobre tua cabeça, não seja motivo para que te caiam em desalento as mãos, mas ainda mais se fortaleçam. Fizeram-te frágil e a tua maravilha é essa mesma fragilidade. Avançam em anos as árvores, mas a ti foram dados alguns dias tão somente, mas alguns prodigiosos. Procura sentir como nessa hora estão vivos e frescos os teus sentidos; como corre por tuas veias o teu sangue, indo alegremente do tronco aos braços, e dos braços à ponta dos dedos que te fremem, presas de ânsias incontidas. Colhe teu lenço ou tua porcelana.  Apressa-te a deixar estereotipado o semblante de tua alma no trabalho que executas. Os vestígios autênticos de tua alma ficarão, sem que o saibas, no tecido que teces, no tijolo que cortas. Pintas o semblante de tua coragem, o perfil de tua vontade; teu elogio ou teu frenesi.
Neste preciso instante, não permitas que o Sol ilumine tuas costas em vão; devolve o sorvo do vento, cheio de olores férteis  e o qual bebes avidamente. Esta é a insigne cortesia do homem para com as coisas. Dão-te elas os frutos oleosos e açucarados, e tu por tua vez lhes ergues novas formas pelos vales. Sê aquele que devolve sempre, o que não usa de ardis, o que não recebe com uma das mãos ao tempo em que paga com a outra. Era assim o antigo cavaleiro; a mulher forte da Bíblia também. Devolviam, não faziam outra coisa senão devolver!
Hoje. Pensa esta palavra em tua mente,  e que ela te queime de ansiedade, de impaciência nobre e digna.
Para construir o assento, onde descansará tua mãe, tens, carpinteiro, a hora que passa; e tens esta hora, donzela, para encher de lã a almofada em que dormirá teu irmãozinho, recordando-se de ti durante muitas noites; e para ministrar ensino a tua classe, tens, mestra, tens esta hora que passa...
É uma boa porção de teu sangue que se está esvaindo e que, gastes ou não, vai-te diminuindo e minguando. Porque o tempo, desde que nascemos, semelha uma ferida em nosso peito que verte o nosso sangue, gota a gota, como esses vasos de gargalo muito estreito.
Toda obra que tens por fazer golpeia teu peito contínua e imperiosamente. E tu não sentes!

“A consciência é o pulso da razão: as suas pulsações são outras advertências”
Coleridge 




Beijos meus, 
cheios de luz, paz, fé e esperança!
Rosane!







segunda-feira, 7 de março de 2011

"Tenho aprendido com o tempo" TEXTO DE ANA JÁCOMO





Tenho aprendido com o tempo que a felicidade vibra na frequência das coisas mais simples. Que o que amacia a vida, acende o riso, convida a alma pra brincar, são essas imensas coisas pequeninas bordadas com fios de luz no tecido áspero do cotidiano. Como o toque bom do sol quando pousa na pele. A solidão que é encontro. O café da manhã com pão quentinho e sonho compartilhado. A lua quando o olhar é grande. A doçura contente de um cafuné sem pressa. O trabalho que nos erotiza. Os instantes em que repousamos os olhos em olhos amados. O poema que parece que fomos nós que escrevemos. A força da areia molhada sob os pés descalços. O sono relaxado que põe tudo pra dormir. A presença da intimidade legítima. A música que nos faz subir de oitava. A delicadeza desenhada de improviso. O banho bom que reinventa o corpo. O cheiro de terra. O cheiro de chuva. O cheiro do tempero do feijão da infância. O cheiro de quem se gosta. O acorde daquela risada que acorda tudo na gente. Essas coisas. Outras coisas. Todas, simples assim.
Tenho aprendido com o tempo que a mediocridade é um pântano habitado por medos famintos, ávidos por devorar o brilho dos olhos e a singularidade da alma. Que grande parte daquilo em que juramos acreditar pode ser somente crença alheia que a gente não passou a limpo. Que pode haver algum conforto no acordo tácito da hipocrisia, mas ele não faz a vida cantar. Que se não tivermos um olhar atento e generoso para os nossos sentimentos, podemos passar uma jornada inteira sem entrar em contato com o que realmente nos importa. Que aquilo que, de fato, nos importa, pode não importar a mais ninguém e isso não tem importância alguma. Que enquanto não nos conhecermos pelo menos um pouquinho, rabiscaremos cadernos e cadernos sem escrever coisa alguma que tenha significado para nós.
Tenho aprendido com o tempo que quando julgamos falamos mais de nós do que do outro. Que a maledicência acontece quando o coração está com mau hálito. Que o respeito é virtude das almas elegantes. Que a empatia nasce do contato íntimo com as nuances da nossa própria humanidade. Que entre o que o outro diz e o que ouvimos existem pontes ou abismos, construídos ou cavados pela história que é dele e pela história que é nossa. Que o egoísmo fala quando o medo abafa a voz do amor. Que a carência se revela quando a autoestima está machucada. Que a culpa é um veneno corrosivo que geralmente as pessoas não gostam de ingerir sozinhas. Que a sala de aula é a experiência particular e intransferível de cada um.

Tenho aprendido com o tempo coisas que somente com o tempo a gente começa a aprender. Que o encontro amoroso, para ser saudável, não deve implicar subtração: deve ser soma. Que há que se ter metas claras, mas, paradoxalmente, como alguém me disse um dia, liberdade é não esperar coisa alguma. Que a espontaneidade e a admiração são os adubos naturais que fazem as relações florescerem. Que olhar para o nosso medo, conversar com ele, enchê-lo de cuidado amoroso quando ele nos incomoda mais, levá-lo para passear e pegar sol, é um caminho bacana para evitar que ele nos contraia a alma.

Tenho aprendido que se nos olharmos mais nos olhos uns dos outros do que temos feito, talvez possamos nos compreender melhor, sem precisar de muitas palavras. Que uma coisa vale para todo mundo: apesar do que os gestos às vezes possam aparentar dizer, cada pessoa, com mais ou menos embaraço, carrega consigo um profundo anseio por amor. E, possivelmente, andará em círculo, cruzará desertos, experimentará fomes, elegerá algozes, posará de vítima para várias fotos, pulará de uma ilusão a outra, brincará de esconde-esconde com a vida, até descobrir onde o tempo todo ele está.



Ainda tenho muito a aprender com o tempo, muito tempo me resta ainda...
Beijos meus cheios de luz, paz, amor, fé e esperança!
Rosane!

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