quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

- TRANSPARÊNCIA DIVINA -




Transparência divina
J. Ramón F. de la Cigoña sj



O ser humano é complexo e o seu interior quase infinito. Contudo, esta imensidade experimentada parcial e pontualmente no dia-a-dia é mais sentida do que verbalizada. Somos profundos e místicos, mas também limitados; espirituais e transcendentes e, ao mesmo tempo, concupiscentes e carnais. Esta mistura santa e pecadora possibilita variantes infindas que, por desgraça, são mais negativas do que positivas; repetitivas e não muito criativas. Como experimentar o gratuito, sempre grande e unitivo e não ficar no egoísmo, sempre pequeno e disjuntivo? Como sair da sufocadora mesmice e deixar-se levar pela força da complexidade? Se estamos tocados irremediavelmente pelo pecado, muito mais o estamos pelo poder da graça! Cristo ressuscitado supera infinitamente as humanas limitações e incoerências do primeiro Adão e de seus descendentes!

Deveríamos ser otimistas e positivos, mas nosso pessimismo histórico nos impede de saborear verdadeiramente a vida. Esse inconsciente negativo está muitas vezes entrelaçado com as questões de gênero ou da corporeidade, dando a sensação de que nunca seremos felizes ou estaremos salvos de verdade. Negatividade e maldição parecem assinalar fortemente a existência de muitos. Os condicionamentos históricos, sociais, familiares e pessoais aprisionam e angustiam muitas pessoas; quantas precisam de ajuda terapêutica para poder sobreviver!

É preciso sair desse atoleiro aparentemente interminável. Necessitamos de outra visão psico-espiritual mais positiva, para deixar de lado o poderio da negatividade. Temos algumas certezas e experiências ao nosso favor: A vida está sempre do nosso lado, por mais frágil que seja; o mistério divino da encarnação marcou positiva e eternamente toda existência humana. Nada fica fora daquela presença sublime que, desde então, tudo invade e diviniza. Encontrar graça na desgraça e o divino no humano é tarefa para todos! O Senhor vem ao nosso encontro onde menos o esperamos! Tudo se torna diáfano e transparente para quem sabe enxergar!

No coração humano há mistérios infinitos que a própria razão muitas vezes desconhece. Um deles, a liberdade; outro, o amor. Liberdade e amor são essenciais no ser humano. Sem a experiência dessas realidadesfundamentais ficaremos truncados, perdidos e diminuídos. As Ciências Humanas (Filosofia, Antropologia, Psicologia...) tentam dar uma explicação convincente a esta falta de apreço pelo importante e essencial, mas não encontra unanimidade nas suas propostas: uns negam terminantemente a liberdade e o amor (Marxismo, Psicologia comportamental, etc.); outros os idolatram em demasia (liberalismo, hedonismo, anarquismo, etc.). Provavelmente, a verdade se encontra no meio dessas duas polarizações: não há liberdade pessoal sem compromisso social, nem amor sem responsabilidade. Se assim agirmos, estaremos muito perto da ética do cuidado, do re-encantamento pela criação, da sacralização do dessacralizado, valorizando respeitosamente tanto as pessoas como o seu entorno.

Vivemos tempos de grandes mudanças culturais que afetam o nosso modo unidimensional de viver. Hoje, não só o diferente tem carta de cidadania, mas também o friki
e o fraudulento se fizeram visíveis e ganharam espaços sociais significativos. Experimentamos ao mesmo tempo o individualismo que separa e a globalização que agrupa. As liberdades individuais, fruto de misteriosas opções pessoais, não só têm conseqüências pessoais, mas também obrigações sociais. Hoje, um dos aprendizados mais desafiadores é o de viver a própria personalidade sem se isolar e sem se machucar.

1. Opção radical pelo humano. As atitudes negativas (internas ou externas) em relação às pessoas e ao seu entorno - corrupção, destruição ou engano - são reprováveis e nada constroem. Ninguém é feliz sozinho ou metido numa jaula de ouro. A convivência é sinal de uma boa saúde física e mental. Estamos umbilicalmente vinculados e precisamos do respeito e
carinho de todos. A liberdade e o amor, bem empregados, concretizam o melhor do que somos e temos; mal utilizados, ocasionam o pior tanto no âmbito pessoal como no social. A saúde ou doença política, econômica e moral da sociedade dependem de nossas decisões melhores ou piores.

Não há vida humana sem liberdade; não há sociedade sem o afeto de uns e outros.O dicionário Aurélio define assim a liberdade:“F aculdade de cada um decidir ou agir segundo a própria determinação”. Agir adequadamente e tomar decisões significativas são o objetivo dos Exercícios Espirituais.

Não há liberdade absoluta em seres limitados, nem amores perfeitos nos humanos. Contudo, a concretização do possível apresenta resultados excepcionais, pois o positivo quando concretizado é bem maior do que ele mesmo. Liberdade e amor efetivados, por menores que pareçam, não só humanizam como deixam transparecer o divino escondido. Os gestos gratuitos são sempre uma epifania da graça escondida.

Sabemos que nem sempre as nossas decisões são livres e positivas. A limitação que experimentamos faz parte da nossa bagagem e freqüentemente corre o risco de pesar mais do que deve. Como descondicionar, pois, essa negatividade aderida? Como romper essa corrente histórica de “carmas, feitiços e maldições” familiares e pessoais que escondem excessivamente o melhor das pessoas?Inácio fez essa desconstrução quando contava 30 anos de idade, quebrando o domínio negativo da sua história passada e concretizando novos gestos de amor e serviço. Será que a liberdade como o amor não se conquistam antes desse tempo?

Uma maneira de mudar nosso agir é construir positivamente a própria história e se conscientizar da negatividade que condiciona nossas vidas e decisões. A percepção do que somos e fazemos cria uma maior sensibilidade nos relacionamentos e um jeito mais luminoso de ser e proceder.

Não há dúvida de que a sensibilidade espontânea positiva nos abre e constrói; a negativa, por desgraça, nos encolhe e encobre os nossos horizontes. A fragilidade e limitação de cada um só são superadas pela abertura e acolhimento desinteressado dos outros. Quem procura egoisticamente a si mesmo perde o sentido da sua vida. O convívio gratuito e o cuidado carinhoso por tudo e todos dão um significado novo e iluminam sensivelmente a própria vida. Os outros são espelhos da nossa bondade ou da nossa iniqüidade!

2. Onde proliferou o pecado superabundou a graça (Rm 5, 20). A maioria das pessoas são espontaneamente “negativas” e condicionam desse modo o seu agir. Alguns até acham estúpido procurar o bem dos outros quando o próprio ainda não foi plenamente realizado. Convenhamos, a limitação e o pecado fazem parte da nossa história!

Se a liberdade depende muito da sensibilidade e esta pode ser espontaneamente positiva (interage bem, há cumplicidade, crescimento e outras formas positivas de proceder) ou negativa (interage mal: sentindo rejeição, resistência ou outras formas negativas de proceder), quantas pessoas não estão condicionadas negativamente no seu agir! Os EE são para pessoas “condicionadas” negativamente, pois eles pretendem “preparar e dispor a alma para tirar de si todas as afeições desordenadas (negativas)” (EE 1) e uma vez conseguido isto deci
dir positivamente o sentido da vida.

Afetos desordenados nascidos de desejos bagunçadosproduzem vidas e sociedades desorganizadas e injustas. Facilmente nos acostumamos com a “desordem” sentida ou instituída e achamos tudo isso muito natural. Contentamo-nos com pouco e não esperamos muito da vida. O desencanto no querer é perverso, pois acaba não só com os sonhos melhores como também impede a realização do possível!
Mas, é possível se definir positivamente num mundo tão doído e desgastado? A desordem reinante (social, política, econômica, moral...) manifesta de algum modo a pobreza interior vivida e imaginada pelas pessoas. É utópico ordenar o desordenado, libertar o preso e amar o diferente? É possível romper os condicionamentos sociais e pessoais e abrir-se a horizontes melhores e maiores? Nossos condicionamentos nos impedem realmente de amar?

Nada impede a ação de Deus. Fomos condicionados a encontrar Deus só naquilo que achamos que é bom e positivo. Encurralar Deus em categorias por mais positivas que sejam é não respeitá-lo, nem entendê-lo. Deus não fica fora de nada, pois até no absurdo da Cruz Ele estava!

Qual a experiência que você tem? O amor brota do conhecimento ou este nasce do amor? Conhecemos primeiro e amamos depois ou, pelo contrário, amamos e só posteriormente conheceremos melhor a pessoa amada? O que vem primeiro nos relacionamentos humanos: o conhecimento ou o amor?

O amor não tem hora para começar. Ele nos habita desde sempre! Por isso, quando se concretiza a pessoa se transfigura e transparece. Amar, acolher, acreditar e não sufocar. Quem sufoca o outro, certamente não o ama, nem acolhe. Há outros sentimentos atravessados no coração dos humanos: paixão e ódio são os maiores; os menores: atração e a rejeição. Todos terminam com o passar do tempo, pois só o verdadeiro perdura.

No imenso mundo das nossas incoerências e fantasias sempre haverá lugar para a verdade e o amor. Muitas pessoas são testemunhas concretas de que Deus é muito maior do que a própria limitação! Paulo dizia: nada no mundo nos pode separar do imenso amor que Deus tem por nós!

Encontrar Deus nas diversas realidades do mundo e o Espírito do Senhor nas contrariedades dos humanos é usar de outra forma os nossos sentidos. Sentimos a misericórdia do Senhor nas nossas fraquezas e o seu poder salvador nas próprias limitações. Certamente o Pai nunca esteve tão próximo do Filho como na paixão. Aqui, um se fez íntimo do outro. Nas nossas adversidades Deus está mais presente, pois temos maior necessidade d’Ele! Deus transparece na realidade cotidiana.

3. Como descem os raios do sol e as águas da fonte. Como separar os raios do sol ou as águas da fonte donde brotam? Como separar o que sentimos e fazemos do que somos? Por que não encontrar Deus que tudo habita na vida cotidiana? Alguns ficam assustados qua
ndo experimentam plenamente a sua humanidade, como se pudessem experimentar uma outra coisa? Deus se faz presente nas suas criaturas e está sempre onde nós estamos.
Encontrar, pois, Deus na completa imersão do cotidiano. Sentir-se à vontade no corpo com todos os seus desejos; na mente com todas as suas idéias e fantasias; no espírito com sua luz e trevas. Assumir inteiramente nossa humanidade, o que sentimos e pensamos, já que tudo brota do mesmo sol e da mesma fonte.
Na serenidade da noite, Deus segreda; na luminosidade do dia, Deus se apresenta. A vida pulsa, a mente imagina, as emoções ondeiam, os pensamentos fluem... O que são todas estas coisas senão manifestações sem fim do mesmo Ser que em todos habita? Ir por outro caminho seria percorrer os traços de uma espiritualidade alienada e obtusa onde Deus só pode estar onde pensamos que Ele deveria ficar!

____________________________
Friki , friqui procede do inglês freak ( insensato, extravagante) usado para se referir a uma pessoa de aparência ou comportamento inusitado ou fanático.
















Deus de minha vida, tu me chamas para fora do meu cotidiano e me colocas dentro do teu amor.

Tu queres que tudo em mim venha a florecer.

Eu me entrego a ti e confio na tua graça, neste tempo todo especial para mim.

Assim seja.

Tenham todos um bom e iluminado dia!

Rosane!




Um comentário:

  1. Rô querida!

    Deixei um mimo pra ti lá no blog. Tô voltando de vagarinho.
    Bjim.

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"Concedei-nos, Senhor, a serenidade necessária
Para aceitar as coisas que não podemos modificar,
Coragem para modificar aquelas que podemos,
E sabedoria para distinguir umas das outras".

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