terça-feira, 17 de agosto de 2010

"O AMOR É O MEU PESO" SANTO AGOSTINHO

 O AMOR É O MEU PESO

O corpo, devido ao peso, tende para o lugar que lhe é próprio, porque o peso não só tende para baixo, mas também para o lugar que lhe é próprio. Assim o fogo encaminha-se para cima, e a pedra para baixo. O azeite derramado sobre a água aflora à superfície; a água vertida sobre o azeite submerge-se debaixo deste: movem-se segundo o seu peso e dirigem-se para o lugar que lhes compete. As coisas que não estão no próprio lugar agitam-se, mas quando o encontram, ordenam-se e repousam.

O meu amor é o meu peso. Para qualquer parte que vá, é ele quem me leva. O vosso Dom inflama-nos e arrebata-nos para o alto. Ardemos e partimos. Fazemos canções no coração e cantamos o "cântico dos degraus". É o vosso fogo, o vosso fogo benfazejo que nos consome enquanto vamos e subimos para a paz da Jerusalém celeste. "Regozijei-me com aquilo que me disseram: Iremos para a casa do Senhor". Lá nos colocará a "boa vontade", para que nada mais desejemos senão permanecer ali eternamente.
Santo Agostinho - Confissões

Para Agostinho somos o que amamos, isto é, nossa essência está definida pelo que amamos. Pois, não é possível mudar os amores sem também mudar de ser. Amando coisas diferentes, nos transformamos também em pessoas (seres) diferentes. Assim, primeiro amamos, depois somos. E o que somos depende do que amamos. Por iso, ser bom, isto é ser homem ou mulher de bem, significa amar o que deve ser amado e não amar o que não deve ser amado. Amar o errado, amar as coisas ou as pessoas erradas é o caminho para a autodestruição. A felicidade está em amar as coisas certas, as pessoas certas, os lugares certos.  Agostinho pensava que amores diferentes constroem coisas diferentes. Conhecida é sua sentença dois amores fundaram, pois, duas cidades.[21] 

Assim, amar o certo é o verdadeiro caminho. Mas, às vezes embora amemos o certo, não podemos ter o que amamos. O amor se apresenta como uma ausência. Então, Agostinho elevava os olhos ao céu e orava para Deus: Concedei-me o que amo, porque estou inebriado de amor.[22] E ainda: Dai-me o que amo, pois Vós me concedestes esta graça de amar. [23] Conseqüentemente a calma, o descanso, só pode vir na presença do amor. Agostinho escreve: o lugar do descanso imperturbável está onde o amor não é abandonado, a não ser que o amor nos abandone primeiro.[24]

Mas se algumas vezes o amor era ausência, outras era presença. Assim, o amor também trousse para Agostino momentos de prazer. Lembrando estes momentos, e seus anos de juventude, Agostinho confessava: Que coisa me deleitava senão amar e ser amado?[25] e ...era para mim mais doce amar e ser amado, se podia gozar do corpo da pessoa amada.[26]  Para Agostinho — ou pelo menos para o jovem Agostinho — o amor era também corpo e beleza, beleza ligada ao corpo e corpo ligado a beleza. Assim, definiu a beleza do corpo dizendo que toda a beleza do corpo é a congruência de partes com uma certa suavidade de cor. [27]  E ainda, como filósofo que gostava da retórica, ele colocou isto de uma maneira mais filosófica e mais poética:

Um corpo, formado de membros todos belos, é muito mais belo que cada um dos seus membros de cuja conexão harmoniosíssima se forma o conjunto, posto que também cada membro separadamente tenha uma beleza peculiar. [28]

E finalmente, ele também ligou tudo isto a própria felicidade e afirmou que a alma só se alimenta daquilo que lhe traz alegria. [29]

Assim, o texto de Agostinho no qual ele afirmava que o amor era seu peso[30] e que ele sempre se inclinava, caia, para o lado do amor, e a ama e faze o que quiseres, significa, de acordo com Agostinho que nosso destino está determinado pelas coisas que amamos, e o fundamento de todo ato é o amor, então todo o que fazemos é produzido pelo amor. A filosofia de Agostinho proclamava que é o amor quem nos impulsiona, quem nos leva, quem nos atrai: o rumo da vida é dado pelo amor.  Então, as coisas que amamos assinalam o rumo de nossa vida. Por isso Agostinho pode aconselhar aos seus discípulos ama e faze o que quiseres[31]. Se for por amor está certo... mas, ao olhar o mundo e suas paixões acrescenta, tenha também o cuidado de amar o certo.  Assim,  a ética do amor de Agostinho pode ser resumida no seguinte texto:

Uma vez por todas, foi-te dado somente um breve mandamento: Ama e faze o que quiseres. Se te calas, cala-te movido pelo amor; se falas em tom alto, fala por amor; se corriges, corrige por amor; se perdoas, perdoa por amor. Tem no fundo do coração a raiz do amor: dessa raiz não pode sair senão o bem![32]   

            Por isso, quem ama de verdade não pode deixar de fazer o bem. O amor leva à vontade e a vontade leva ao fazer. Ou seja, o amor leva ao fazer, à ação, aos atos. Mas os atos de amor também têm uma dimensão de solidariedade, de ajuda, que — sendo consequencia do verdadeiro amor — deve estar livre de interesses mesquinhos e egoístas.  Sentindo isto, Agostinho escreveu:

Na verdade, não devemos desejar que haja miseráveis para termos ocasião de realizar obras de miseric­órdia. Tu dás pão a quem tem fome, mas melhor seria que ninguém passasse fome, que não tivesse ninguém para dar! Vestes o que está nu. Aprouvesse ao céu que todos fossem vestidos e que essa necessidade não se fi­zesse sentir! ... Suprimi as carências e as obras de misericórdia cessarão. Quer dizer que o ardor da caridade cessará? Mais autêntico é o amor que dedicas a pessoa feliz, que não precisa de teus dons. Bem mais puro será esse amor e bem mais sincero. Isso porque, prestando serviço a um necessitado, talvez desejes te exaltar diante dele e queiras que te seja reconhecido aquele que deu origem à tua boa ação. Ele está carente, tu lhe dás parte de teus bens, e porque dás, tu te imaginas superior àquele a quem dás. Deseja, ao contrário, que ele te seja igual! Isso para que ambos estejam sujeitos Àquele a quem nada se pode dar. [33]

                        Agostinho, como bom estudioso da alma humana, está preocupado com analisar os reais motivos que levam a uma pessoa a ser caritativa ou boa.  O verdadeiro ato de amor é completamente desinteressado, sem procurar recompensa, sem procurar nada em troca, produto só do amor. Com isto agostinho coloca na mesa de discussão um tema filosófico que será motivo de reflexão em muitos filósofos: se o homem é naturalmente solidário ou egoísta, isto é, se o os atos que parecem solidários seriam só uma mostra mais de egoísmo, que procurariam nos fazer sentir bem, ou sem peso de consciência, ou aumentar nosso prestigio frente às outras pessoas. Assim, sua conclusão, embora polemica, não deixa de ter algo de verdadeiro: o verdadeiro ato de amor não é com o necessitado, mas com o que esta feliz. Fazendo atos de caridade com quem esta feliz e não precisa nada, teremos a certeza de não ter nenhum reconhecimento em troca.  Isto é, possivelmente, filosófica e teologicamente correto, porem, tal vez, um pouco ineficiente para aliviar a necessidade de nossos semelhantes. Assim, Agostinho não aconselha a não se benevolentes, só ele recomenda que frente a cada ato benevolente olhemos para o interior de nossa alma e procuremos os reais motivos. Assim, o orgulho ou a arrogância de pensar que somos bons, neutralizada ao olhar no fundo de nossa alma. Não é por nada que a maior descoberta de Agostinho, e o maior legado que nos deixou, sua maior herança, é a descoberta da intimidade, isto é da alma humana. Sobre isto devemos deixar claro que Agostinho entendia alma como intimidade. A alma era para ele o nosso lado espiritual. Espiritual — como bem assinalou Julian Maria[34] —  em Agostinho é aquela realidade que é capaz de entrar em si mesma. Por isso para Agostinho o poder entrar em si mesmo é o que dá a condição de espiritual, não a não-materialidade. Agostinho descobriu a interioridade, a intimidade do homem, para ele, quem fica só nas coisas exteriores, esvazia-se de si mesmo, por isso terminaremos com uma de suas frases mais famosas: no interior do homem habita a verdade.

FONTE AQUI


 

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Bom e maravilhoso dia para você.
cheio de fé, esperança e amor!
Rosane!

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"Concedei-nos, Senhor, a serenidade necessária
Para aceitar as coisas que não podemos modificar,
Coragem para modificar aquelas que podemos,
E sabedoria para distinguir umas das outras".

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