quarta-feira, 14 de maio de 2008

Minha homenagem a Artur da Távola




Crônica de Artur da Távola

QUEM É AMIGO ?

Amigo é quem, conhecido ou não, vivo ou morto, nos faz pensar, agir ou se comportar no melhor de nós mesmos. É quem potencializa esse material. Não digo que laboremos sempre no pior de nós mesmos (algumas pessoas, sim) mas nem sempre podemos ser integrais para operar no melhor de nós. Há que contar com algum elemento propiciador, uma afinidade, empatia, amor, um pouco de tudo isso. E sempre que agimos no melhor de nós mesmos, melhoramos, é a mais terapêutica das atitudes, a mais catártica e a mais recompensadora. Esta é a verdadeira amizade, a que transcende os encontros, os conhecimentos, o passado em comum, aventuras da juventude vividas junto. Um escritor ou compositor morto há mais de cem anos pode ser o seu maior amigo.Esse conceito de amizade, transcende aquele outro mais comum: a de que amigo é alguém com quem temos afinidade, alguma forma de amor não sexual, alguém com quem podemos contar no infortúnio, na tristeza, pobreza, doença ou desconsolo. Claro que isso é também amizade, mas o sentido profundo desse sentimento desafiador chamado amizade é proveniente de pessoas, conhecidas ou não, distantes ou próximas, que nos levam ao melhor de nós. E o que é o melhor de nós? É algo que todos temos, em estado latente ou patente, desenvolvido ou atrofiado. Mas temos. E certas pessoas conseguem o milagre de potencializar esse melhor. Sentimo-nos, então, fundamente gratos e de certa maneira orgulhosos (no bom sentido da palavra) por poder exercitar o que temos de melhor. Este melhor de nós contém sentimentos, palavras, talentos guardados, bondades exercidas ou não. Amar, ao contrário do que se pensa, não perturba a visão que se tem do outro. Ao contrário, aguça-a, aprofunda-a, aprimora-a. Faz-nos ver melhor. Também assim é a amizade, forma de especial de amor, capaz de ampliar a lucidez e os modos generosos e compreensivos de ver, sentir, perceber o outro e sobretudo -se possível- potencializar os seus melhores ângulos e sentimentos.Somos todos seres carentes de ser vistos e considerados pelo melhor de nós. A trivialidade, a superficialidade, as disputas inconscientes, a inveja, a onipotência, a doença da auto-referência faz a maioria das pessoas transformar-se em vítimas do próprio olhar restritivo. E o olhar restritivo é sempre fruto da projeção que fazem (fazemos) nos demais, de problemas e partes que são nossas e não queremos ver. E quantas vezes isso acontece entre pessoas que se dizem amigas. Essas pessoas (que se dizem amigas), ignoram certas descobertas do velho Dr. Freud e através de chistes passam o tempo a gozar o “amigo”, alardeando intimidade (onde às vezes há inveja) como prova de amizade. O que não é. Mesmo quando é...Se se quiser medir o tamanho de uma amizade, meça-se a capacidade de perceber, sentir e potencializar o melhor do outro, porque somente essa atitude fará dele uma pessoa cada vez melhor e por isso merecedora da amizade que se lhe dedica.


Artur da Távola e a vida interior

No dia 10 de maio, o Brasil perdeu um de seus homens espirituais, o intelectual, o jornalista, o político e o promotor da música como caminho para a interioridade: Artur da Távola ou Paulo Alberto Monteiro de Barros.
Ele era um homem de síntese. Apesar das contradições da sociedade, alimentava uma inarredável confiança na melhoria do ser humano e da democracia.
Havia nele uma fonte secreta, da qual pouco falava, mas que os íntimos conheciam, da qual continuamente bebia: a dimensão espiritual, diria, mística da vida. Tal constatação me traz à mente a figura do Secretário Geral da ONU, abatido na Nigéria em 1961: Dag Hammarskjöld. Logo após a sua morte, descobriu-se em sua escrivaninha escritos de alto teor místico, de uma mística essencial e, por isso, supra-confessional, publicados com o titulo Marcos do Caminho. Havia orações, lamentações, pensamentos sofridos e levados diante do Mistério com o qual entretinha secreta intimidade.
Há muitos anos, quando professor de teologia em Petrópolis, convidei Artur da Távola para falar aos jovens teólogos sobre televisão. Aceitou, mas sob uma condição: que lhe doasse a edição completa das obras de São João da Cruz e de Santa Tereza D’Avila que a editora Vozes acabara de lançar. Dizia que vivia do jornalismo e do compromisso político. Mas a fonte de sentido de sua vida estava num outro lugar.
Artur da Távola interessou-se em fazer um comovente posfácio ao meu livro Espiritualidade: um caminho de transformação (Sextante). Aí dizia: “Vivemos numa sociedade extrovertida. O sistema produtor precisa da extroversão para vender produtos. Necessita de pessoas com muitas vontades e desejos permanentemente irrealizáveis, pois serão potenciais consumidores. Mas o que precisamos é de pessoas satisfeitas com o que têm, conscientes, com opções, capazes da maior das liberdades, a interior, seres que consigam equilibrar a solicitação do mundo exterior com a demanda interior, a espiritual”.
Durante muitos anos manteve todos os domingos na TV Senado um erudito e, ao mesmo tempo, popular programa, Quem tem medo da musica clássica?, em que fazia esclarecedoras introduções, explicava a vida dos mestres, ressaltava a beleza das partes e transmitia entusiasmo pelo enlevo espiritual da música. Nada mais conatural à experiência religiosa que a experiência musical. Ela, sutil e sem palavras, fala ao profundo das pessoas, lá onde habita o Mistério inefável. Sempre terminava com o mesmo motto: “Quem aprecia música, alimenta a vida interior. E quem tem vida interior jamais padecerá de solidão”.
Outro campo em que se notabilizou foi na reflexão sobre o amor. As ponderações são argutas, coladas à vida cotidiana. Refiro apenas um pequeno texto onde diz:
"Amor, só, não basta. Ele precisa de respeito. Amor só, é pouco. Tem que haver inteligência. Tem que haver bom humor. Não adianta, apenas, amor. Tem que ter disciplina para educar filhos. Amar “solamente” não basta. É preciso convocar uma turma de sentimentos para amparar o amor que carrega o ônus da onipotência. O amor até pode nos bastar, mas ele próprio não se basta”.
Suas reflexões dão razão a São Paulo em seu conhecido cântico ao amor. Não basta só amor. Ele tem que vir acolitado pela paciência, pela cortesia e pela capacidade de tudo desculpar, tudo tolerar, tudo crer e tudo esperar. Só assim ele nunca acabará. Somos gratos à vida e à amizade do saudoso Artur da Távola.
Por Leonardo Boff

3 comentários:

  1. Fiquei emocionada com essa homenagem Rô, Artur da Távola sempre foi um exemplo pra mim!

    Beijão

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  2. Passei pra lhe deixar um abraço e felicitá-la pelo pelo dias das mães (que já passou. Parabéns!

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  3. Parabéns, Rô que por essa linda homenagem!
    Como é difícil entender que: "Não basta só amor"!

    Beijo.

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"Concedei-nos, Senhor, a serenidade necessária
Para aceitar as coisas que não podemos modificar,
Coragem para modificar aquelas que podemos,
E sabedoria para distinguir umas das outras".

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