Photobucket

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Carta aos Pais – Caio Fernando Abreu






Carta aos Pais – Caio Fernando Abreu

“São Paulo, 12 de agosto de 1987.

Querida mãe, querido pai,

Não sei mais conviver com as pessoas. Tenho medo de uma casa cheia de pais e mães e irmãos e sobrinhos e cunhados e cunhadas. Tenho vivido tão só durante tantos – quase 40 – anos. Devo estar acostumado.

Dormir 24 horas foi a maneira mais delicada que encontrei de não perturbar o equilíbrio de vocês – que é muito delicado. E também de não perturbar o meu próprio equilíbrio – que é tão ou mais delicado.

Estou me transformando aos poucos num ser humano meio viciado em solidão. E que só sabe escrever. Não sei mais falar, abraçar, dar beijos, dizer coisas aparentemente simples como “eu gosto de você”. Gosto de mim. Acho que é o destino dos escritores. E tenho pensado que, mais do que qualquer outra coisa, sou um escritor. Uma pessoa que escreve sobre a vida – como quem olha de uma janela – mas não consegue vivê-la.

Amo vocês como quem escreve para uma ficção: sem conseguir dizer nem mostrar isso. O que sobra é o áspero do gesto, a secura da palavra. Por trás disso, há muito amor. Amor louco – todas as pessoas são loucas, inclusive nós; amor encabulado – nós, da fronteira com a Argentina, somos especialmente encabulados. Mas amor de verdade. Perdoem o silêncio, o sono, a rispidez, a solidão. Está ficando tarde, e eu tenho medo de ter desaprendido o jeito. É muito difícil ficar adulto.

Amo vocês, seu filho,

Caio”


fonte aqui






Beijos meus cheios de luz, paz, amor, fé e esperança!  
 










2 comentários:

  1. Caio sempre transborda sentimentos, talvez não mto bonitos as vezes, mas com mta maestria!

    BjOs de Nana :)
    Blog
    FanPage

    ResponderExcluir
  2. Que beleza tão triste!Que prova de amor maior do que abrir a alma para as pessoas mais importante da sua vida? Ah! Caio era um privilegiado.Fez das palavras puro sentimento e desta carta uma herança inestimável.
    Brisas e flores para você.Bjs Eloah

    ResponderExcluir

"Concedei-nos, Senhor, a serenidade necessária
Para aceitar as coisas que não podemos modificar,
Coragem para modificar aquelas que podemos,
E sabedoria para distinguir umas das outras".

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails