segunda-feira, 16 de abril de 2012

A PALAVRA SE FEZ POESIA por Frei Fabiano Aguilar Satler



A PALAVRA SE FEZ POESIA  por Frei Fabiano Aguilar Satler


É realmente paradoxal. Em nenhum outro momento Deus e o ser humano trilharam caminhos tão divergentes quanto no momento em que Deus decidiu vir ao encontro definitivo da sua criatura.
O ser humano quer se elevar até Deus. A Torre de Babel, os zigurates babilônicos, a ascese, a mortificação, a elevação do espírito, a fuga do mundo, os lugares altos, a gnose, tudo isso revela o esforço para nos desprendermos de uma realidade demasiadamente humana e irrompermos em direção à realidade do Sagrado que parece nos atrair para o alto.
Deus, porém, ignorando todo esse esforço humano, ordena: “Regressa, vermezinho. Desce e volta ao chão da tua humanidade. É no meio da estrada da humanidade que havemos de nos encontrar. É trilhando o caminho dos homens que eu vou trilhar que finalmente chegarás a mim.”
Na introdução do seu Evangelho, João resume de maneira magistral esse caminho assumido por Deus, a Encarnação do Verbo: “A Palavra se fez carne e veio habitar no meio de nós” (Jo 1,14). Deus desceu das alturas e armou a sua tenda no meio da humanidade. No ventre de Maria, fez-se carne da nossa carne e sangue do nosso sangue. Na pequena oficina de José, fez-se trabalhador e filho.
O mistério da Encarnação de Deus celebrado no Natal pode ser apreendido corretamente, num primeiro momento, como o fato de que Deus assumiu um corpo humano.
O nosso corpo é a expressão mais clara da nossa existência, é o centro de irradiação da nossa presença. Pelo nosso pensamento e pela nossa capacidade de amar, expandimos o nosso corpo até as pessoas e as realidades amadas. Não sou do tamanho do meu corpo. Sou do tamanho daquilo que amo. Mas, é a partir do meu corpo visível que alcanço, com meus pensamentos de amor, as realidades amadas, por mais distantes que se encontrem.
É com o nosso corpo que nos relacionamos com as demais pessoas e criaturas, é com nossos braços que acolhemos as pessoas amadas e nos reconciliamos com quem nos feriu. É com o corpo que homem e mulher se juntam para gerar nova vida.
A Encarnação do Verbo num corpo humano, portanto, deita por terra certa compreensão da nossa corporeidade que vê o nosso corpo como obstáculo à santificação e à união divina, numa atitude esquizofrênica que proclama a ressurreição do corpo após a morte, ao mesmo tempo em que busca a sua mortificação durante a vida presente.
Uma verdade fundamental expressa com a Encarnação da Palavra de Deus é simples: o corpo de que somos formados e a matéria em que nos inserimos são bons em si mesmos. Toda a matéria e toda a vida têm a sua origem nas relações amorosas da Comunidade Trinitária. Entretanto, não podemos reduzir a Encarnação da Palavra Divina ao fato de que um corpo físico foi formado no seio de Maria para acolher a Palavra, por mais grandiosa que seja essa dimensão corpórea da Encarnação. Para podermos entender a profundidade e o sentido desta afirmação do Evangelista João - E a Palavra se fez carne e veio habitar no meio de nós -, poderíamos desenvolvê-la da seguinte forma:
A Palavra se fez comunicação, se fez juras de amor entre os enamorados, se fez música e poesia, se fez dança e festa, se fez refeição e confraternização, se fez oração solitária e oração compartilhada, se fez comunhão de vida e união de corações.
A Palavra se fez mão samaritana para socorrer quem está caído, se fez abraço para acolher os pecadores, se fez encontros que curam e que libertam, se fez gestos de amor entre pais e filhos, entre marido e mulher e entre companheiros de caminhada.
A Palavra se fez jovem e idoso, se fez homem e mulher, se fez criança com Síndrome de Down e criança autista, se fez pai e se fez mãe. A Palavra se fez dor e enfermidade, se fez silêncio e solidão, se fez ira e agressividade, se fez grito dilacerante de abandono, se fez sofrimento e morte.
Se apanharmos emprestada a poesia de Cora Coralina, poderíamos dizer que a Palavra se fez

Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo,
é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela não seja nem curta,
nem longa demais, mas que seja intensa,
verdadeira, pura...Enquanto durar.

Em resumo: tudo aquilo que é humano – o pecado fica de fora, pois ele é justamente o que nos desumaniza – foi assumido, santificado e plenificado pela Encarnação de Deus no ventre de Maria e nas realidades mundanas. O humano é querido e amado por Deus. Não há, portanto, caminho de salvação possível fora da nossa realidade humana. Apenas conhecendo, assumindo, amando e transformando a nossa própria realidade humana é que seremos capazes de trilhar o caminho de salvação inaugurado por Jesus, a Palavra feita humanidade.
Quem pensa que o caminho de santificação passa por uma fuga das nossas realidades humanas – por mais conflituosas que possam parecer – faz o caminho inverso daquele assumido por Jesus. Mas, também esses serão, um dia, iluminados em sua humanidade pelo Verbo, “Luz verdadeira, que, ao vir ao mundo, a todo o homem ilumina” (Jo 1,9).


Beijos meus cheios de, luz, paz, amor, fé e esperança no Cristo ressuscitado!

Um comentário:

  1. Rosane, que coisa mais linda e ungida foi essa palavra que você postou! Olha é tão linda que eu até copiei para ler na Reunião de Liturgia que participo toda 2ª feira. Parabéns! Beijão!

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"Concedei-nos, Senhor, a serenidade necessária
Para aceitar as coisas que não podemos modificar,
Coragem para modificar aquelas que podemos,
E sabedoria para distinguir umas das outras".

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