sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Fé e Cidadania



“O sofrimento religioso é, a um único e mesmo tempo, a expressão do sofrimento real e um protesto contra o sofrimento real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração e a alma de condições desalmadas. É o ópio do povo”.

Karl Marx


Fé e Cidadania


A questão da fome na tradição judaico-cristã




“Você sai limpo de seu banho, vestindo roupas claras, cheio de satisfação e euforia e se dirige à esplêndida mesa que lhe foi posta. O outro, porém, transido de frio e morto de fome, dá voltas e mais voltas pela praça pública, com a cabeça baixa e estendendo as mãos. O infeliz já nem tem mais ânimo para se dirigir ao bem-alimentado e bem-descansado, pedindo-lhe o sustento necessário, e muitas vezes se retira coberto de insultos” (São João Crisóstomo)

As religiões, por meio de suas estruturas visíveis se constituem nas instituições com maior credibilidade junto aos mais pobres. Por um lado, como instituições sociais elas podem, por meio do desenvolvimento de uma subjetividade cidadã, colaborar para que as pessoas, famílias e comunidades percebam a demanda por justiça presente na sociedade ou, por outro lado, ser um amortecedor (nas palavras de Karl Marx, “o ópio do povo”)

1 - da revolta e indignação contra as injustiças. As religiões possibilitam esses dois movimentos opostos: o de alienação e, conseqüentemente de fuga da dura realidade cotidiana ao criar uma capa protetora que impede o questionamento de situações de injustiça e exclusão social. O de autonomia do sujeito. Nesse sentido, a religião permite a elaboração de uma subjetividade cidadã que insere as pessoas e comunidades no espaço público como construtoras de um novo Ethos. Neste sentido, a fome se constitui numa questão ética (Ética Social e Moral Pública) que deve ter prioridade na agenda das Igrejas, especialmente para aquelas que têm uma vocação pública e profética.

A atuação das Igrejas no combate à fome é uma atividade muito mais complexa do que a simples distribuição de cestas básicas. Faz-se necessário um engajamento ético e político na esfera pública, pois o fim da polis é superior aos fins individuais.

Para uma presença das Igrejas no espaço público, Keeling apresenta a necessidade de um equilíbrio entre “visão e disciplina” (profecia e lei): “disciplina é o meio pelo qual a visão do nosso destino último se atualiza na história, e a visão inspira a nossa obediência e fidelidade à vontade de Deus”

2 - Visão, nesse contexto, seria uma questão teleológica, “pois tudo nessa vida tem um telos (fim, meta, objetivo, propósito)

3 - A visão, no caso das Igrejas, é construída especialmente (não exclusivamente) pela interpretação e ressignificação da tradição bíblico-profética. Nesse caso, o tema da fome não é desconhecido da tradição judaico-cristã,e aparece por diversos momentos na história do povo de Deus. É evidente nos textos do Antigo Testamento (ou Bíblia Hebraica, na linguagem politicamente correta) que a fome não é algo aceitável a Iahweh: “Se tu te privares para o faminto, e se tu saciares o oprimido, tua luz brilhará nas trevas, a escuridão será para ti como a claridade do meio-dia. Iahweh será teu guia continuamente e te assegurará a fartura, até em terra árida” (Is 58. 10-11a).

Nas diferentes promessas escatológicas de restauração (visão), se evidencia a vontade divina: “Não terão fome nem sede... porque o que deles se compadece os guiará, e os conduzirá aos mananciais das águas” (Is 49.10).

“Os pobres e indigentes buscam água, e nada! Sua língua está seca de sede, mas eu, Iahweh, os atenderei, eu, o Deus de Israel, não os abandonarei. Farei jorrar rios por entre montes desnudos, e fontes no meio dos vales. Transformarei o deserto em pântamos e a terra seca em nascentes de água”. (Is 41. 17-18).

Ficou registrado na memória coletiva das comunidades neotestamentárias que a única fome e sede que agradam a Deus é a fome e a sede pela justiça: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos” (Mt 6.6).

Os relatos (memória) das primeiras comunidades cristãs afirmam que desfrutarão do Reino de Deus aqueles que viveram na dimensão da solidariedade e da justiça: “então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos do meu Pai! entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo. Porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber...” (Mt 25.34-35).



Clovis Pinto de Castro








Tenham um final de semana repleto de bençãos e de graças e que Maria Mãe Santíssima os ilumine e rogue por nós junto a seu Amado Filho Cristo Jesus.


Nossa Senhora Imaculada Conceição Aparecida roguai por nós que recorremos a vós!

Rosane!


2 comentários:

  1. Oi Rô!
    Vi no blog da Cris, do Todoyda, que hoje é dia do perdão para os judeus.
    Não sabia que eles tinham um dia homenageando um ato tão nobre. Gostei muito da idéia.
    Aqui no Mato Grosso criaram o Dia da Soja, não sei para que...
    Podiam ter criado o dia do Perdão ou o dia da Fé ou então o dia da Cidadania!
    Beijos

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"Concedei-nos, Senhor, a serenidade necessária
Para aceitar as coisas que não podemos modificar,
Coragem para modificar aquelas que podemos,
E sabedoria para distinguir umas das outras".

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