sexta-feira, 20 de julho de 2007

Poema - Minha casa ne guarda como um abraço -



È preciso fritar o arroz bastante


Antes de colocar água fervendo.


E não pode mexer jamais depois de a água ser posta.


O alho deve fritar no óleo com o arroz.




Coisas que eu sei e que não.Eu sei muitas coisas.


Faxina, por exemplo. Sei limpar uma casa de tal modo


Que não sobra um canto que não


Tenha sido tocado por minhas mãos.


Depois vou sujando. Com muito gosto.


Deixo peças na sala e louças sujas na pia.


Não mesma hora, mas um pouco bastante depois


Volto limpando. Assim me faço.


Nos objetos que me acompanham.




Gosto de andar nas ruas e comprar coisas.


Que vão se arrumando em torno de mim.


Eu tenho muitas coisas,


Quero dizer, tenho muitas camadas.


Uma camada de livros, outra de sapatos,


Tem camadas de plantas. E toalhas de rosto.


Tenho camadas de cosméticos e adereços.


Uma camada de nomes e coisas que vejo.


Tudo adornado ao meu redor. Em forma de corpo.


Um corpo que se sustenta


Quando o meu próprio me falta.




Cadeiras são meus ossos.


Sapatos são meus braços.


Torneiras em meus poros.


Paredes como roupas de inverno.


(Quando toca música em minha casa sai do umbigo)




Descanso recostada nas paredes da casa


Que me guardam como um abraço.


Me abraço quando me derramo na sala.


E na cozinha. Em geral adormeço no quarto.




Tudo em minha casa tem existência.


Todas as coisa significo. Com os olhos.


Ou com as mãos. Minha casa tem silêncios


Que às vezes ouço. Em meu corpo.


Tem silêncios maiores ainda.


Que às vezes ouço. E faço poemas.


Faço poemas dos silêncios que ouço.




Ando com mania de lustra-móveis e ceras líquidas,


Olho um por um nas prateleiras. Sinto a textura e cheiro.


Espalhando um pouco entre os dedos. Prefiro os de textura fina


E que cheiram jasmim ( gosto mais do aroma floral


mas a palavra jasmim é tão bonita).


Levo todos para casa e vou espalhando. Primeiro no assoalho.


Considero todos os cantos. Depois os móveis


Com as mãos vou tateando. Um por um.


Em reverência.


Ao que me sustenta quando em desamparo




As casas me sustentam em mim. Por isso eu quero em detalhe.


Bem cuidadas e cheias de espaços onde novas coisas se deitam.


Costumo encontrar tesouros escondidos


nas dobras das colchas.


E nas louças sujas da pia. Tenho muitas janelas.


Que é por onde o sol e a chuva me visitam.


O vento aqui também é muito forte.


Às vezes derruba tudo e eu gosto.


MAS AQUI TAMBÉM CABEM PESSOAS.


TEM SEMPRE LUGAR PRA PESSOAS EM MIM.





Poema da capixaba VIVIANE MOSÉ autora dos livros


Pensamento Chão(2001) e Desato(2006) (dos quais foram retirados estes versos)



Ao ler este poema hoje, me identifiquei muito com suas palavras, foi como
se autora estivesse me vendo por dentro, e devagarinho fosse me descobrindo.
Amei, por isso resolvi posta- lo.

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"Concedei-nos, Senhor, a serenidade necessária
Para aceitar as coisas que não podemos modificar,
Coragem para modificar aquelas que podemos,
E sabedoria para distinguir umas das outras".

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