quinta-feira, 18 de agosto de 2011

"A arte de Cuidar" -Roque Junges – Ética e gênero: o paradigma do cuidado -


Ontem foi meu dia de aula no Atelier. Lá, nesse local onde além de aprender renovo minhas energias e meus conhecimentos, tenho muitas amigas-irmãs afinal temos já um convívio  que já beira os dez anos. Uma delas tem uma escolinha que cuida de pequeninos para os pais trabalharem. Até aí tudo bem, mas minha amiga estava indignada com um casal e nos contou que esse casal foi viajar a trabalho fora do país e deixou seu filhinho de meses com elas(as donas da escolinha). Foram e quando voltaram não vieram buscar o filho de imediato deixaram por alguns dias sem se importar se a criança estava bem ou não. E quando estavam fora também não se comunicavam para saber do filhinho. Ela nos narrou tristemente o que é que essa nova geração de pais estão a fazer com seus filhos, que deveriam ser prioridade em suas vidas, mas...primeiro a carreira, a ambição,  poder...depois constituir família e, se no meio do caminho engravidam, é fácil é só deixar em algum lugar que alguém com certeza fará o papel de pai e mãe ou cuidador.
O artigo abaixo especifica bem essa nova geração de seres humanos. OS CUIDADORES.
Pessoas que com  amor e preparo vão ao longo de suas vidas cuidando daqueles que alguém não quer cuidar. Mas, para isso, eles, OS CUIDADORES, precisam ser preparados para cumprir a MISSÃO para que foram cumulados de seus dons.
Eu aplaudo esses seres humanos e repudio aqueles que delegam seus entes a outros fazerem e cumprirem seu papel de CUIDADORES.




A ARTE DE CUIDAR


A luta pelo  poder , a busca de vantangem e a concorrência desenfreada, os
potenciais de agressão como forças impulsionadoras de nossa cultura, estãolevando a humanidade para o abismo.
Consequências:
- milhões de pessoas vitimadas pela cruel competição do mercado globalizado;- a crescente pobreza e exclusão social a nível mundial;- a sistemática agressão ao sistema Terra, que põe em risco o futuro da biosfera.
Vivemos uma autêntica via-crucis de dimensões planetárias.Esta situação produz uma degradação geral da qualidade de vida.
Não são somente os pobres que gritam, grita também a Terra, submetida à pilhagem(esgotamento de seus recursos não renováveis, a contaminação do ar, do solo e da água...) Esta situação de barbárie por grave falta de solidariedade e de cuidado (entre os  seres  humanos  e para com a Terra) desperta indignação  ética e um sentimento de com-paixão por todos os que sofrem.
- Precisamos de  um novo paradigma civilizacional que redefina as relações dos seres humanos para com a  vida e a Terra. 
- Precisamos ser inspirados por forças verdadeiramente espirituais para proteger o contexto da vida e a unidade do gênero humano.- Precisamos reinventar modos de produção em consonância com a natureza, e não às custas dela.
Neste  contexto  surge  a  categoria “com-paixão” como  um  dos  valores fundamentais, capaz de fundar uma aliança de perene paz com a Terra. Importa reformular o significado elementar e a força da compaixão e trazê-la à nossa consciência como base para toda ética.O “princípio-compaixão” se presta a criar uma nova atitude do ser humano, demais benevolência e de solidariedade para com todos os que sofrem.Na nova consciência planetária, este princípio-compaixão ultrapassa aquela solidariedade que se restringe aos membros da própria espécie. Em última análise, é dedicação e cuidado a todo criado.Só assim nosso mundo terá chances de sobreviver.O processo do cuidar é fundamentalmente um diálogo, não de idéias, mas devida, onde a paixão e não tanto a razão é o elemento central.Trata-se dum diálogo vital que deve enriquecer ambos interlocutores.
No processo de cuidar seres vulneráveis, o diálogo é essencial porque é o lugar em que se concretiza a interação pessoal, em que o encontro adquire um rosto concreto.Nesse diálogo, os elementos não verbais, os gestos têm uma importância fundamental.
Assim, a arte de cuidar é um diálogo de presenças, o encontro de dois seres que se dispõem a falar, a olhar-se, a acolher-se, a aceitar-se e enriquecer-se mutuamente. A arte de cuidar, como diálogo de presença, é delimitado e determinado em seu desenvolvimento pela vulnerabilidade.
Cuidar de alguém é ajudá-lo a expressar sua vulnerabilidade.
Nesse sentido, cuidar de alguém é ajudá-lo na suaedificação.Numa situação de
fragilidade e desamparo a pessoa necessita recolher os fragmento  existenciais  para  reedificar  sua  interioridade  e  restabelecer  a harmonia e a paz.Para isso, é preciso reconstruir os fundamentos.

A arte de cuidar é oferecer os recursos para essa reconstrução. Edificar uma pessoa afetada pela fragilidade é ajudar a recompor o seu interior e reconstruirá sua identidade pessoal a partir de fundamentos mais consistentes

Na arte de cuidar,
                           alguns princípios básicos:


a) Ter sempre presente a visão integral do ser humano em suas diferentes dimensões e relações; estar atento às circunstâncias pessoais de cada um que são o solo sobre o qual se vai construir a identidade pessoal.


b) O cuidado deve levar em consideração a situação particular de cada um, mas, ao mesmo tempo, estar atento à inserção comunitária do sujeito a ser cuidado.
A arte do cuidar é tanto um processo de singularização quanto uma reconfiguração comunitária e social da pessoa vulnerável.


c) Cuidar é uma ação esperançosa que abre perspectivas de futuro para quem está sem horizonte.
Desperta a atitude de esperança, porque faz olhar para frente e a pensar em novas possibilidades.
Anima, suscitando expectativas. 


Mas, por outro lado, precisa ajudar também a olhar para o passado, interpretar as experiências dolorosas, voltar às suas fontes, aceitá-las, tomar posse delas...
O cuidado deve ter um olhar esperançoso para frente e um olhar interpretador para trás.


d) O cuidado é antes de mais nada um ato de beneficência. Cuidar é querer bem e proporcionar o bem, afastando toda ameaça de males e fazendo acontecer  todo bem-estar possível ao outro.
A arte do cuidado, mesmo tendo a intenção de ajudar e produzir o bem-estar, não deve ser uma ação paternalista. A aceitação do cuidado deve ser fruto de uma decisão livre.


Assim, cuidar de alguém é também cuidar da sua liberdade, ajudando a recobrar a autonomia e independência possíveis.
Reconstruir a autonomia é auxiliar a recuperar o centro pessoal, a responsabilidade e o poder de decisão.


e) A arte do cuidar exige tanto responsabilizar-se por quem é cuidado, quanto torná-lo responsável pela sua situação. Responsabilizar-se é caminhar com o outro, partilhando as suas preocupações, expectativas, angústias e medos.


Cuidar é ajudar a levar a carga da vida de alguém, aliviando o seu peso. Mas não se trata de ficar no seu lugar, assumindo o problema.


f) Parece, à primeira vista, que quem cuida é ativo e quem é cuidado é passivo.
No cuidado precisa existir uma dialética entre passividade e atividade.


Em certos momentos, quem cuida deve ser passivo e deixar quem é cuidado ser ativo.
A pura passividade ou a pura atividade de um ou outro pólo da arte do cuidado é prejudicial à ação de cuidar .


g) A arte do cuidado é um exercício de proximidade: ela exige disponibilidade, acolhida, preocupação pelo outro, acercamento à sua fragilidade.
A proximidade não é estática, mas dinâmica. Consiste num movimento de aproximar-se, acercar-se, romper barreiras...
A superação da distância espacial, afetiva e ética é fundamental para a ação de cuidado.


Não se pode cuidar de alguém à distância. Mas, por outro lado, a proximidade não pode significar dependência afetiva que obscureça a identidade pessoal.


Quem cuida não pode estar tão próximo que tome o lugar do outro e responda por ele.
O cuidado exige também o distanciamento que possibilita o assumir-se e tomar decisões.


h) Cuidar pressupõe tempo de dedicação e uma continuidade temporal.
Não pode ser um ato instantâneo e apressado. Exige paciência, lentidão e gratuidade temporal.
Quem cuida não pode estar medindo e contando as horas. O ritmo temporal de quem cuida deve estar adaptado ao ritmo somático, psíquico e existencial de quem é cuidado.


Cuidar exige também um espaço idôneo; não pode acontecer em lugar estranho e anônimo, muito menos num lugar caótico e ruidoso. Exige cenários habituais e conhecidos. O próprio lar é o lugar mais adequado.


Situações de fragilidade devem ser vividas e assumidas em espaços familiares que façam sentir-se em casa. No espaço anônimo, a pessoa vulnerável encontra-se desamparada, exilada e expatriada.


i) Não existe cuidado sem comunicação; no entanto, a pessoal vulnerável fala mais por gestos e olhares do que por palavras.
Cuidar é essencialmente escutar e estar atento às necessidades e solicitações de quem necessita ajuda.


j) Na arte de cuidar, a vinculação entre quem cuida e quem é cuidado é fundamental.
Ela pode acontecer naturalmente pela empatia, mas nem sempre é espontânea. Nesse caso é necessário encontrar meios que criem laços e fortaleçam vínculos entre os dois.


“A pessoa vulnerável necessita cuidado regado com afetividade, especialmente ternura, pois deseja ser tratada com delicadeza e sensibilidade”


Fonte: Roque Junges – Ética e gênero: o paradigma do cuidado -   Convergência no. 348 (dezembro – 2001)(http://pt.scribd.com/doc/49066544/A-arte-de-cuidar)



Ramalhete EspiritualBeijos meus,
cheios de  luz, paz, amor, fé e esperança!
Rosane!





3 comentários:

  1. Nossa Rô que maravilhoso esse texto!!
    Hj ha inversão de valores..cuidar e dar dinheiro e deixar ficar no computador...estranho né?!!

    Tem sorteio aqui
    http://eutocorrendo.blogspot.com/
    Beijaum ♥

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  2. Querida que texto maravilhoso para reflexão!"Situações de fragilidade devem ser vividas e assumidas em espaços familiares que façam sentir-se em casa. No espaço anônimo, a pessoa vulnerável encontra-se desamparada, exilada e expatriada" Concordo com isto plenamente.Quem poderia dar mais amor e cuidados que os familiares? Nada substitui o aconchego da família.Valeu amiga! Só espero que a nova geração não inverta os valores e se conscientizem que o amor é o melhor remédio e assumam o papel que lhe é devido de cuidadores quando for necessário.Querida muita luz e muito amor neste dia Bjs Eloah

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  3. Rosane, maravilhoso post. Ontem mesmo na Semana Nacional da Família falava-se do cuidar do idoso e das crianças.O padre dizia que a família é o santuário da vida, onde os pais formam, moldam e preparam os filhos para o mundo. Parabéns por tão lindo post! Beijinhos!!!

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"Concedei-nos, Senhor, a serenidade necessária
Para aceitar as coisas que não podemos modificar,
Coragem para modificar aquelas que podemos,
E sabedoria para distinguir umas das outras".

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